
Vida cristã além dos jargões e clichês
A vida cristã necessita ir além dos
jargões e clichês que são produzidos e reproduzidos ao longo da história
eclesiológica. Os jargões são terminologias técnicas ou dialetos comuns a uma
atividade ou grupo específico, e são normalmente utilizados em grupos
profissionais ou socioculturais. Nos guetos evangélicos não é diferente. Temos
nossos jargões, expressões ou frases que são sempre utilizadas para aconselhar,
confortar ou encorajar alguém. No entanto, esses jargões que utilizamos e
falamos a torto e a direito por aí, não resolvem e nem sequer colaboram para a
resolução dos problemas da vida moderna. Os crentes adoram utilizar essas
expressões para tratar dos problemas dos outros, mas têm certeza de que essas
expressões de nada valem e sempre ficam irritados quando esses jargões são
ditos a eles. Para bem da verdade, o grande problema desses jargões é que, em
sua maioria, denotam a falta de profundidade teológica, as heresias e egoísmo
presentes no ambiente evangélico. Particularmente, tenho um sério problema com
os jargões evangélicos. É como se meu ouvido doesse cada vez que um jargão
evangélico fosse pronunciado. É por isso que considero importante analisar e
porque não criticar o absurdo que denotam alguns desses jargões evangélicos.
Vamos lá!
“A oração é alavanca que move a mão
de Deus”
Também tem sua variação como sendo “a
fé a alavanca que move a mão de Deus”. Esse jargão parece verdadeiro e
inofensivo, mas basta uma análise um pouco mais minuciosa para ver como ele é
falso e até satânico. Em primeiro lugar, se há algo que um ser humano possa
fazer para que Deus se lembre ou faça algo em seu favor, isso anula a graça de
Deus e exalta a meritocracia. Não é por causa de uma oração, um sacrifício ou
uma oferta que Deus abençoa o homem. Ele o faz por causa da sua graça, da sua
misericórdia e do seu amor. Em segundo lugar, esse jargão é herético uma
vez que pressupõe uma posição estática em Deus. É praticamente como dizer que Deus
está sentado, quase cochilando no trono, apenas esperando que alguém manifeste
fé, para que ele aja em favor daquela pessoa. Oramos nunca para mover a mão de
Deus, mas sempre para sermos por ela movidos. Deus não é relutante nem vagaroso
em responder orações, muitas vezes Ele está apenas aperfeiçoando o nosso
caráter.
“Tomar posse da benção”
Isso é um típico jargão da confissão
positiva, parte da teologia da prosperidade. É uma interpretação totalmente
equivocada do texto de Hebreus 11, onde os teólogos dessa teologia sustentam
que a benção deve ser visualizada e em seguida deve-se tomar posse da benção,
que já foi concedida e está incubada ou arquivada, esperando apenas a
movimentação do crente. Uma enorme heresia que não tem base nenhuma no antigo e
muito menos no novo testamento. Você não precisa “tomar posse da benção”,
afinal, “a todos quantos o receberam, deu-lhes o poder de serem feitos filhos
de Deus” (João 1:12). Ou seja, Ele é quem outorga poder.
“Buscar a face do Senhor”
Esta é uma expressão complicada e ao
mesmo tempo muito utilizada. É praticamente impossível alguém que seja cristão
evangélico a mais de dois meses e nunca a escutou. Lembro-me de, certa vez, ter
perguntado a um amigo neopentecostal como se fazia para buscar a face de Deus.
Ele me explicou de uma maneira muito simples: “eu me tranco no quarto, coloco
um louvor pra tocar e fico ali orando por horas se preciso for”. No final tive
vontade de perguntar a ele: “e assim você consegue achar?”. Sinceramente, a
leitura dos evangelhos nos mostra que Jesus deixou uma lição muito bonita e
singela, de que a melhor maneira de buscar a face de Deus é olhando para o
próximo. Se não descobrirmos a face de Deus no rosto de nossos familiares,
amigos, irmãos, patrões, moradores de rua e etc., jamais a encontraremos dentro
de nós ou em outro lugar. Deus não existe fora do outro. (Gênesis 33:10 – 1
João 4:20)
“O melhor de Deus ainda está por
vir”
Eu não sei o quê esse povo ainda
espera de melhor, sendo que Deus “não poupou a seu próprio Filho, antes o entregou
por todos nós” (Romanos 8:32b). O melhor de Deus é Jesus Cristo e, portanto, o
melhor de Deus já veio. Muitos declaram/cantam essas palavras pensando em
bênçãos terrenas, materiais e um conforto que ainda está por vir da parte de
Deus, quando, na realidade, Deus já “nos abençoou com todas as bênçãos espirituais nos lugares celestiais em Cristo” (Efésios 1:3). O melhor de
Deus já veio, Cristo Jesus, e se buscarmos nele alegria e satisfação, viveremos
também contentes em toda e qualquer situação.
“Entrar na presença de Deus”
Fico a pensar qual é o ser humano que
não esteja na presença de Deus e que por isso seja necessário “adentrá-la”.
Seria o ateu? O agnóstico? O muçulmano? Ou o crente que está em pecado? O
que define isso? De onde arrancaram essa ideia? Se de fato cremos que Deus é
onipresente, é evidente que tudo e todos estão na presença Dele.
“Dar base legal para o inimigo agir”
“Cuidado, fazendo isso você vai estar
dando base legal para o inimigo agir na sua vida!” Já perdi as contas de
quantas vezes ouvi isso, exatamente assim, com todos os gerúndios que
escrevi. Confesso que durante um breve tempo da minha vida tomei todos os
cuidados para que minhas ações fossem sempre extremamente e moralmente
corretas, para de maneira nenhuma dar brecha para o diabo. Até que finalmente
compreendi que o sangue de Cristo me purifica de todo o pecado e mais, que toda
maldição que veio ou poderia vir sobre minha vida foi cravada na Cruz. A
suficiência da cruz de Cristo é a simples verdade que pode modificar nosso modo
de viver.
Com esses apontamentos, minha
intenção não é ridicularizar ou menosprezar quem utiliza essas expressões. Na
verdade, minha intenção é alertar para que de maneira nenhuma o nosso modo de
seguir a Cristo se resuma a expressões vazias e sem sentido nenhum, mas sim que
o dia a dia de discípulo se transfigure em espiritualidade voltada para o amor,
a paz e a justiça do Reino de Deus. Insisto ao dizer que a vida cristã
necessita ir além dos jargões e clichês que são produzidos e reproduzidos ao longo
da história eclesiológica. Que vivamos todos os dias para honrar e glorificar o
nome de Deus e para sinalizar o reino Dele de maneira efetiva no mundo!
Fonte:http://minhavidacrista.com/